Terça-feira, 2 de Agosto de 2011

Vermelho Sangue





"Um dia, vais entender que os clientes mais complicados são aqueles que näo compreendem o piano como instrumento, e muito menos têm algum tipo de noção musical."  - P. M.




O seguinte texto não serve de veiculo de difamação, muito menos instrumento de semear a discórdia e o mal entendimento, mas sim de memória simples e identificativa, de modo algum pejorativa.
O que o cliente pretendia era fazer uma análise ao piano, saber em que estado ele se encontrava, com o objectivo de o restaurar e colocar a render num espaço que recebe frequentemente pessoas. Fiz o que pude, dei uma vista de olhos ao miolo do päo e dei o meu parecer. Nestes casos de renovaçäo ou restauro, mais do que a nossa opiniäo, o importante é por o cliente a falar, e muito. A ideia que o cliente tem sobre o resultado final, o que ele pretende com a intervençäo e a sua filosofia musical ou artística säo fundamentais para que um afinador consiga captar a informaçäo subliminar (filosófica, se quiserem) que fez com que o cliente pegasse no telefone e falasse connosco. Neste caso, o piano iria necessitar de uma intervenção considerável porque foi deixado "ao relento" durante imensos anos. Em suma, pediam-me (por favor não, outra vez não) um milagre.
A primeira ver que fui contactado, combinei determinado dia e hora, e quando esse dia e essa hora chegaram, a pessoa que me recebeu näo fazia a mínima ideia que eu ia passar por lá essa tarde (ou manhä, já näo me recordo bem). Mas o que quero evidenciar neste post é a interacção deficitária entre o cliente e o afinador, que acabou por inviabilizar e aniquilar toda a possibilidade de realizar o trabalho.
De todas as vezes que me desloquei ao local para continuar os testes de resistência ao piano, lidava sempre com uma pessoa diferente, o que me obrigava a explicar tudo novamente, falar do que estava a fazer e quais seriam os passos seguintes, caso o piano obtivesse nota positiva nos testes de resistência (i.e. resposta ao pitch raise, tensão de cravelhas e estado do tampo harmónico). Apesar desse contratempo, pois tinha sempre o tempo contado e explicar isto tarda sempre um pouco visto que raras são as vezes em que o cliente não tem dúvidas sobre o que se fala, segui com o protocolo. No total, desloquei-me ao local umas três ou quatro vezes, acabei os testes e propus uma reparação minimamente evasiva, quero eu dizer mudar cordas, cravelhas e restaurar a máquina. Tudo o resto estava em condições não muito alarmantes. Quando chegou o momento de ser feito o pagamento relativo aos testes, os problemas (que hoje vejo que estavam mesmo por baixo do meu nariz) começaram a desabrochar: desde insinuações de que esse mesmo pagamento já tinha sido feito, passando pela afirmação de que não ia ser feito qualquer pagamento pelos testes de resistência, tudo durante a mesma conversa.
Lembro-me de que exigi o pagamento, alegando que tal nunca tinha sido feito visto que lidando com tantos indivíduos diferentes (três) nunca foi possível desvendar nem identificar qual a entidade verdadeiramente responsável pela minha presença assídua naquele local. Ficou combinado que seria feita a transferência do valor em causa, mas passado ano e meio e até ao momento da publicação deste post, tal ainda não aconteceu.
Nem acho que venha a acontecer.

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